atualizado em 20/04/2026
As ondas de calor estão cada vez mais frequentes e intensas no Brasil e no mundo. O fenômeno pode ocorrer em qualquer estação do ano, tanto no Hemisfério Sul quanto no Hemisfério Norte, mas é particularmente mais intenso na primavera e no verão, quando há um aumento natural da insolação diária, que é o número de horas com sol.
Há décadas, o aumento da frequência e da intensidade de ondas de calor, tanto na atmosfera quanto no oceano, é um dos alertas mais recorrentes da Organização Meteorológica Mundial (OMM) e da Organização Mundial da Saúde (OMS). Os anos de 2024, 2023 e 2025 (nesta ordem) foram os mais quentes já medidos pela ciência moderna desde o período pré-industrial (1850–1900). Em 2024, pela primeira vez, a temperatura média global da Terra — considerando oceano e atmosfera — superou o limite de alerta de segurança de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris.
O que é e como se caracteriza uma onda de calor?
Onda de calor — também chamada de bolha de calor — é uma sequência de dias ou até semanas em que as temperaturas em uma região relativamente ampla ficam muito acima da média normal para uma determinada época do ano. Embora a literatura não seja completamente consensual em relação à definição de uma onda de calor, a Organização Meteorológica Mundial considera que uma onda de calor está atuando em uma região, quando as temperaturas permanecem pelo menos 5°C acima da média histórica por, no mínimo, cinco dias consecutivos.
Além do aumento das temperaturas normalmente observadas à tarde, durante uma onda de calor também se observa um aumento do calor durante a noite, o que traz maior estrresse térmico.
Como se forma uma onda de calor?
As ondas de calor são geradas por bloqueios atmosféricos causados por grandes sistemas de alta pressão atmosférica. O bloqueio atmosférico é uma estagnação do movimento normal do ar provocada por uma alta pressão que permanece parada, ou quase parada, na mesma posição por pelo menos cinco dias seguidos — podendo durar semanas.
As altas pressões atmosféricas são regiões onde a pressão do ar está mais elevada do que ao redor. Elas provocam um movimento descendente do ar (de cima para baixo) chamado subsidência. Esse movimento comprime o ar próximo à superfície, fazendo com que ele aqueça ainda mais.

Alta pressão atmosférica causa a subsidência, que é o movimento do ar de cima para baixo (Fonte: Climatempo)
A subsidência também deixa o ar seco, reduz a umidade e inibe a formação de nuvens, diminuindo significativamente a chance de chuva. Por isso, ondas de calor costumam estar associadas a:
- céu com pouca nebulosidade
- predomínio de ar seco
- baixa ocorrência de chuva
- forte incidência de radiação solar (dias com muito sol)
Bloqueios atmosféricos podem ocorrer em qualquer época do ano, inclusive no inverno. No entanto, quando acontecem na primavera e no verão — períodos naturalmente mais quentes — há um somatório de ar quente que intensifica ainda mais o calor.
Perigos associados ao calor intenso
Sobrecarga no sistema elétrico
Durante uma onda de calor, o uso contínuo e simultâneo de aparelhos como ar-condicionado e ventiladores provoca aumento expressivo no consumo de energia elétrica. Esse pico de demanda pode gerar sobrecarga na rede de distribuição e, em alguns casos, resultar em quedas de energia e apagões pontuais, especialmente em grandes centros urbanos.
Impactos na agricultura
O calor intenso provoca estresse térmico nas plantas, reduz o potencial produtivo das lavouras e acelera a evapotranspiração. Como consequência, há maior necessidade de irrigação e aumento dos custos de produção, além de possíveis perdas agrícolas em episódios prolongados de temperaturas extremas.
Aumento do risco de incêndios
A combinação de temperaturas elevadas, falta de chuva prolongada e baixa umidade relativa cria condições altamente favoráveis ao surgimento e à rápida propagação de focos de incêndio. Esse cenário agrava queimadas em áreas de vegetação, amplia danos ambientais e eleva os riscos à população.
Baixa umidade do ar
Durante episódios de onda de calor, a umidade relativa do ar pode ficar abaixo de 30% e, em situações mais críticas, atingir níveis inferiores a 20%. Esse cenário favorece o ressecamento das vias respiratórias e pode provocar irritação nos olhos e na garganta, sangramentos nasais e agravamento de doenças respiratórias, especialmente em grupos de pessoas mais sensíveis, como crianças, pessoas idosas e quem já tem problemas respiratórios crônicos.
- Durante períodos de calor intenso e ar seco, também é essencial evitar queimadas. Qualquer foco de incêndio deve ser comunicado às autoridades competentes para impedir a rápida propagação das chamas.
Cuidados essenciais durante uma onda de calor
Diante de episódios de calor extremo, a adoção de medidas preventivas é indispensável para reduzir riscos.
- a hidratação deve ser constante, com ingestão regular de água mesmo na ausência de sede;
- bebidas alcoólicas e o consumo excessivo de cafeína devem ser evitados, pois podem intensificar a desidratação;
- é fundamental reduzir a exposição ao sol nos horários mais quentes do dia, especialmente entre 10h e 16h, quando a radiação solar é mais intensa;
- o uso de roupas leves e claras ajuda na regulação térmica do corpo, diminuindo o stresse térmico;
- ambientes internos devem estar sempre ventilados, com circulação de ar sempre que possível;
- em situações de temperaturas muito elevadas, procurar locais climatizados pode ser necessário;
- atenção redobrada com grupos vulneráveis, como idosos, crianças, gestantes e pessoas com doenças crônicas, garantindo oferta frequente de água e nunca deixando crianças ou animais dentro de veículos fechados;
Tendência: ondas de calor mais frequentes e intensas
Com o avanço das mudanças climáticas, os eventos de calor extremo têm se tornado mais comuns, duradouros e intensos. Estudos indicam aumento na frequência, na intensidade e na duração das ondas de calor nas últimas décadas, reforçando a necessidade de monitoramento constante e adaptação da sociedade a esse novo padrão climático.
O relatório sobre o clima global em 2025, divulgado no projeto Lancet Countdown, da revista científica The Lancet mostrou que, em média, no perído entre 2020 e 2024, 84% do número de dias com onda de calor enfrentados anualmente pela população mundial não teriam ocorrido sem as mudanças climáticas.

Média de dias com ondas de calor x mudanças climáticas x IDH (Fonte: https://lancetcountdown.org/)



